quinta-feira, 7 de maio de 2009

Boas Intenções no Ponto de Ônibus


Dez horas da noite.

Era esse o horário que André se reconectava com o mundo. Despedia-se dos colegas de trabalho e saia rumo ao ponto de ônibus. Tinha que caminhar um pouco, aproximadamente dez minutos ate o local. Naquele dia, infelizmente, ele teria que ir sozinho, já que seus amigos tinham saído mais cedo.

O ponto de ônibus ficava numa avenida movimentada do Centro. Naquela hora, havia poucas pessoas que ficavam ali. Prédios já estavam com poucas luzes acesas. As ruas em volta já demonstravam aquele silêncio de hora de dormir, às vezes quebrado pelo passos de pessoas com destino ignorado.

Mas, o que havia chamado à atenção do garoto estava bem ali, perto dele, sentada em um dos bancos de plástico do ponto. Era uma mulher, aparentando uns trinta e alguma coisa, chorando em silêncio. André logo pensou se a mulher não havia sido assaltada. Observou bem. Ela estava segurando uma bolsa preta no colo, e estava tirando o bilhete único da carteira que parecia estar com documentos. Mas então, por que ela estava chorando? André ficou curioso.

Pensou em ir lá falar com ela, perguntar se ela precisava de alguma coisa. Mas ao ver a expressão carrancuda que ela fez de repente, resolveu ficar parado. A mulher não percebeu que estava sendo observada. Estava agora com um olhar perdido na direção da calçada esburacada. Continuava chorando em silêncio e soluçando sem parar.

Não havia mais ninguém no ponto. Apenas os dois. Uma mulher chorando e um jovem sem jeito, olhando pra ela. E nenhum ônibus passando. André quis disfarçar a sua curiosidade, afinal, vai lá se saber por que ela estava chorando. Poderia querer ficar sozinha. Poderia ter sido por causa de um namoro terminado, ou de uma traição. Ou alguma situação humilhante no emprego entre ela e o patrão. Ou a demissão dela. Poderia ser um parente doente. Uma dívida alta que ela não pode pagar. Algum cara que ela gosta, mas que não dava bola para ela. Ou uma briga com a mãe, com o pai, com a melhor amiga...

Não dava. André se viu envolvido por sua curiosidade. Então por que não ir lá falar com ela, oferecer uma ajuda, um ombro amigo, ou pelo menos um lenço? Mas e a vergonha? VERGONHA? Sim, vergonha, por que não? Ele não a conhecia, iria se meter na vida dela daquele jeito? E do jeito largado que ele estava vestido, e com seus olhos vermelhos de tanto cansaço dando a aparência de drogado, ela até se assustaria achando que ele queria era a bolsa dela. Não, pensar assim era exagero demais da parte dele. Se ela realmente estivesse precisando de ajuda, esses detalhes passariam despercebidos.

Tomou a decisão. Iria falar com ela. Dane-se o que ela ia pensar. Ele estava com boas intenções. Sem perder tempo, foi se aproximando da moça. Ela continuava com o olhar perdido, ainda sem perceber que alguém queria ajudá-la. André ia começar a falar. Uma luz. Um barulho de motor. André olhou para o lado. Era o seu ônibus chegando. Um ônibus que passava só de uma em uma hora. E ainda estava vazio, coisa rara. Deu o sinal com os olhos na mulher. O ônibus parou. E agora, mataria a sua curiosidade ou subiria no ônibus, deixando a moça lá, sozinha? Mas e ele, cansado do jeito que estava, que horas voltaria para casa?

Resolveu subir no ônibus. Por mais que isso doesse, ele estava muito cansado e com muita fome, precisava ir. Passou na catraca e sentou, desconcertado, vendo ficar para trás uma simples curiosidade, um desejo de querer apenas... ser útil...


São Paulo, maio de 2006

Danilo Moreira


FOTO: http://www.goodlight.com.br/Images/Dicas/dicas_internas_cont_lagrimas.jpg

8 comentários:

Bruno disse...

Li e criei uma raiva desse menino... Era pra ele ter ido ajudá-la... ainda existem pessoas assim.. affs

muito legal isso aqui.

Srta. Claudinha Chagas disse...

oi!
adorei esse post!
reflete muito bem como às vezes temos a enorme vontade de ajudar alguem, mas nossa preocupação com nosso próprio eu nos leva a cometer erros como o simples estender a mão pra ajudar quem precisa. é realmente uma sintese do comportamento humano.
Parabéns mesmo.
bjus da Claudinha

Danis disse...

Poxa e a história não teve um final feliz..hehehe
Um belo texto que demostra como estamos presos a situações somente nossas,sem se importar muito com os outros.
Parabéns,um lindo texto.É perceptivel que vc tem uma sensibilidade muito aflorada,admiravel de se ver.

Beijãoo
Dani Fapcom

Rodrigo Yoshizumi disse...

ótimo o texto!
e por mais que pareça bizarro ou incomum, isso acontece sempre...

qtas vezes perdemos a chance de sermos "úteis" a alguém por vergonha?

uma boa reflexão... principalmente para nós, paulistanos, que vivemos uma vida corrida, e acabamos por excluir as pessoas ao nosso redor da nossa rotina...

abraaaço!

Alexandre Silva disse...

"Legal seu blog, passa no meu"
kkkkkk... sempre q eu vejo isso eu ñ resisto, mas... vamos ao post


Cara, mto bom esse texto. Eu tb adoro escrever sobre esses temas cotidianos, só ñ posto, rsrs...
Creio que todo mundo já passou por uma situação assim. Não exatamente claro com uma mulher chorando as 10 da noite e tal, mas uma situação etranha de vc querer fazer alguma coisa e não ter feito e ficar com aquilo na cabeça...
Na mente de André com certeza ficou guardado a tal da mulher, o porque raios daquele choro.
Mto bom texto
Abraço
http://falandoprasparedes.blogspot.com/

icaro disse...

legal esse texto, hoje como andam as coisas é meio dificil msm, confiar nas pessoas ou abordar alguém. Enfim mas não podemos perder o lado humano.

Márcio disse...

É são tantas as pessoas com problemas neste mundo! Alguns culparão o André, outros não. Na verdade, percebe-se que existe um confronto em querer ser útil, e quem sabe utilizável. Útil em querer ajudá-la. Utilizável em querer descansar para no dia seguinte estar pronto para servir a sociedade. Há ainda a ansiedade em matar a curiosidade, possivelmente algo para representar o egoísmo dos homens.
Demonstração de que temos o desejo de ajudar-nos uns aos outros, mas há a sensação de que não podemos, de que somos proibidos e se ajudarmos alguém estaríamos fazendo algo errado. Imagine o que aconteceria com ele se no dia seguinte chegasse atrasado no serviço e explicasse que foi por tentar ajudar uma mulher desconhecida na noite passada, não precisa nem se esforçar muito para saber que o seu patrão não daria a justa e humana importância para o assunto, ele além de descontar o atraso talvez caçoaria de André.
Vivemos num sistema deplorável, digo isso pois tive muitas experiências do tipo, em muitas fui vítima deste sistema e em tantas outras fui testemunha. Precisamos repensar nossos conceitos e propagar a luz do conhecimento.

Marcio Andrade.

LuEs disse...

O que há de mais interessante no seu post é exatamente aquilo que eu disse que faltava no texto em que comentei anteriormente: desautomatização.

Você nos mostrou algo que é fato e indiscutível: estamos sempre mais preocupados conosco mesmos. No entanto, você transmitiu isso de um modo muito peculiar. O personagem principal não apenas agiu, ele também se questionou e ao se questionar ele fez com que o leitor também agisse assim.

Quando, por exemplo, ele se pergunta se deve ou não ajudá-la, mas opta por não fazê-lo, por estar com vergonha, o leitor inquestionavelmente é colocado na mesma situação que o personagem e até simpatizamos com ele, pois todos já passamos por uma situação na qual não soubemos se devíamos ou não interferir. Ao mesmo tempo, o senso crítico nos faz perceber a atitude egoísta do personagem: a sua vergonha era maior do que o problema da mulher a ponto de ele não ser capaz de superá-la e oferecer ajuda? Eis o fator desautomatizador. Estamos diante de um ser ambíguo, que se presta a ajudar e inclusive sente essa necessidade de auxiliar com sinceridade, mas, ao mesmo tempo, é preso demais a si mesmo para conceber o ato.

Parabéns pelo seu texto.
;D

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