domingo, 23 de junho de 2013

O país dos acordados

Av. Faria Lima - 17/06/2013 - Manifestantes gritam para
pessoas na sacada de um prédio comercial
♪Vem, vem, vem pra rua vem, contra o aumento!♪

Essa é a terceira vez que tento escrever sobre o assunto com receio de ser mais do mesmo. Na primeira, talvez por ter vivido a História tão intensamente, ainda estava extasiado com tudo. Saíram três páginas. Na segunda, mais sutileza e olhar direcionado para os rumos dessa mesma História. Já agora, com a cabeça mais distante, vou tentar expressar o que penso sobre o que estamos vivendo nessas semanas.

Alguém me disse uma vez, em 2012, que o aumento da passagem de ônibus (já cara) foi empurrado para a próxima gestão, e quando acontecesse seria um estardalhaço. Por isso não me surpreendi quando vi jovens nas ruas protestarem contra o valor de 3,20. Porém, conforme o crescimento dos protestos e junto com a violência – que aqui em São Paulo, a meu ver, chegou ao seu ápice com as repressões policiais extremas no Quarto Ato (13/06) – senti que a luta era muito maior. A tal ferida da acomodação brasileira recebeu vários tiros com balas de borracha. E doeu. A grande imprensa, acostumada a rotular (“manifestantes vândalos”, “mimados”, “rebeldes sem causa”, não era isso?), também sentiu esses tiros ao ver seus próprios funcionários feridos até em locais fora das manifestações. Doeu também em quem nada tinha a ver com a história, mas estava no local errado – ou era a tropa de choque que estava? Doeu nos olhos de quem estava em casa e viu a quantidade de pessoas jogadas à própria sorte com bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e balas de borracha. Doeu até mesmo no Estado, que viu o quanto tinha passado dos limites. Preso por porte de vinagre? Uau... E então, não era mais só 0,20. Era a corrupção, a repressão, a PEC 37, o projeto conhecido como “Cura Gay”, e uma série de outras reivindicações.

E então, incomodado com a situação (mais do que eu mesmo imaginava), cedi ao coro do “Vem pra rua” e fui ao Quinto Ato (17/06), auxiliado pelo grupo que o pessoal da minha antiga faculdade montou no Facebook, tanto para nos encontrarmos quanto para nos atualizar de tudo que acontecia nos arredores. Vi as ruas lotadas de várias gerações, cartazes, prédios com panos brancos e acenos, gente fora dos carros protestando como podiam. E (surpresa!) não vi nenhum policial durante todo o trajeto que percorri (Av. Faria Lima, Juscelino Kubitscheck, Brigadeiro Luis Antônio e Paulista). Ouvia nossas vozes ecoando forte, e as reivindicações berradas com toda a força da garganta. Protesto pacífico. Ironicamente, estive nas vias em que mais passei raiva com ônibus. E agora, eu via aquelas mesmas linhas paradas para nós passarmos. Aqueles mesmos semáforos que tanto ferraram com a minha vida, agora não me paravam mais. Que sensação! Senti a minha geração respondendo à altura as coisas que as anteriores sempre jogavam na nossa cara: “Essa juventude de hoje não quer nada com nada!”. Foi provado que não é bem assim.

Av. Juscelino Kubitschek - Parada no trânsito,
senhora ergue seu cartaz para os manifestantes, que aplaudem

Mais protestos pelo país, confronto ou cenas inusitadas com a policia, casos de saques e depredações (e de manifestantes fazendo de tudo para conter as mesmas), e tarifas em algumas cidades foram reduzidas, inclusive em São Paulo. Mas, como disse, não eram mais só 20 centavos. A partir daí, fazer protesto virou rotina. Tornou-se mania. Muita gente agora quer ir à rua, mas sem ter um foco. Manifestações são marcadas por perfis estranhos. “O povo acordou, vamos protestar contra tudo!” Todo bairro quer fazer o seu barulho. Depois das 17 horas, olho nos noticiários para saber onde as manifestações bloquearam dessa vez. Globo suspendendo as novelas para cobrir o Palácio do Itamaraty sendo incendiado? “Uau... tem coisa errada aí...” “Fora partidos!” “Fora Dilma!” “Fora prefeito!” “Fora Globo!” “Fora governador!” E quem vai entrar no lugar? “Essa tal minoria infiltrada destrói o que vê pela frente apenas por destruir, ou tem algo oculto nessa história?” “Podemos sofrer algum tipo de golpe?” “Quem sabe...” E então, um clima de desconfiança também se manifestou no tal povo acordado.

E daqui para frente, o que vem por aí?

Torço para que os protestos continuem, mas com foco. Que não deixemos de protestar, seja na rua, nas redes sociais, ou de qualquer outra forma. Mas apenas gritar palavras de ordem não resolve o problema. De nada adianta apenas berrar contra as injustiças se não se acompanha tudo que tem sido feito pelos candidatos que você escolheu nas eleições. Votar nulo resolve mesmo o problema? Ou apenas muda os nomes? E a tal memória curta do brasileiro, infelizmente, vai se manifestar?

A prova de que realmente o povo acordou começa agora, não deixando que esse sentimento forte de ação e mudança seja ofuscado pelo tempo ou direcionado para utopias. É preciso cuidado com grupos de má fé, que se aproveitam de grandes mobilizações para agir a favor de seus próprios interesses. É necessário ter foco, conhecimento e informação, para lutar por cada causa a seu tempo e de maneira pacífica (porque, ao contrário do que muitos falam, saquear lojas e depredar ônibus para mim é um tipo de vandalismo que reforça os estereótipos da grande mídia e pode dar mais argumentos a favor da repressão aos manifestantes sérios). 

Estação Pinheiros - Das cinco escadas ouve-se
um coro: ♪O povo acordou...♪

Me sinto satisfeito por testemunhar essa história, e continuo a fazer a minha parte dentro do que posso. O governo parece ter entendido o recado. As indignações ultrapassaram as redes sociais. Agora, são gritos, cartazes, faixas, mãos erguidas, panos brancos e um desejo de arrumar a casa. Aqui e em outras partes do mundo.

Na sexta-feira, enquanto estava na Linha Esmeralda, vi um vagão barulhento como de costume. Mas, ao tirar o fone de ouvido, me senti bem: todos comentavam sobre a situação do país, os rumos da política, os protestos. Nas calçadas da Av. Paulista, idem. Na recepção da clinica que passei, também. Quando poderia imaginar que um dia eu veria os rumos do país sendo discutidos com tanta frequência? Não era disso que muita gente reclamava? “O povo só fala de futebol e novela, enquanto os políticos fazem o que querem”. Pois é, agora, o país está em pauta. Ninguém, por mais que odeie política, passou ileso por essa fase. O Brasil deixou de ser o “país com tudo errado” para “o país que precisa de conserto”. E isso já é um ganho precioso.

Posso, talvez, ter escrito mais do mesmo. Ou escrito alguma bobagem, já que estamos ainda em uma fase indefinida. E eu já estou de saco cheio de tentar escrever algo sobre o assunto (pronto, falei!). Não tem problema, acho que mais do que nunca o blog precisa ter um registro desse período tão importante na nossa história. Só torço mesmo é para que nada disso caia no esquecimento e voltemos a ser a aquela nação que apenas ri de tudo.  

Que a luta continue, com a cabeça e os olhos bem abertos para o bom senso.  

Danilo Moreira

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FOTO: Acervo pessoal (fotos de celular - tive um pequeno problema no dia, não deu pra tirar fotos melhores)

3 comentários:

Jac Bagis disse...

O povo está insatisfeito e cansado de tudo... pagamos tantos impostos, porém nunca vemos o retorno de forma satisfatória. É como pagar o aluguel de uma casa: o dinheiro foi, para usufruto do dono da casa, e não tem retorno nenhum a você, fora o utilizar a casa. Espero que o povo não volte a deitar em berço esplendido, deixando tudo a Deus dará

Leandro disse...

Também sou jornalista e estive presente na maioria dos protestos em SP. Acredito que essas manifestações deveriam ter acontecido a muito tempo, porém nunca é tarde para tentar mudar algo.
Está na hora do país mudar, mas as vezes que isso levará séculos.

Abraços,

Leandro Narciso
http://www.emquestao.org

Fábio Flora disse...

A luta por melhor qualidade de vida deve ser permanente. É preciso, no entanto, atentar para grupos (parte da mídia, por exemplo) que tentam desvirtuar os movimentos e orientá-los segundo seus interesses. Abraços e sucesso com o blog!

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