domingo, 24 de março de 2013

Delongas na terra nova


É estranho sentir esse vazio. Digo isso porque já era algo previsto. Agora, meus dias se resumem a expectativas. Achava que sentiria mais falta daquela terra acadêmica que me proporcionou tanto aprendizado. Fora os momentos afins, regados à cerveja, amigos, cultura e baladas. Já senti o coração doer, já me acostumei a não ter mais nada daquilo da mesma forma. Agora estou aqui, nesse novo “terreno”.

Fico deitado em meio ao silêncio. Penso, repenso, concluo. A vida é muito curta para pensar demais. E tão frágil para fazer tudo sem pensar. Do que estou falando? Estou aqui há horas sem ter o que fazer, esperando ligações, a checar e-mails em busca de resposta, quebrando a cabeça ao tentar escrever alguma coisa. Já vivi essa fase antes. Virar uma página, viver em uma fase diferente, apostar em novos caminhos e esperar a resposta. Mudança de cenário. Dias que se arrastam num intenso silêncio e ócio que parece às vezes querer me empurrar diretamente para a cama. Ou para baixo. Talvez os dois ao mesmo tempo.

Da outra vez, eu era um jovem de 18 anos. Eu não tinha computador, blog, redes sociais, e nem celular. Se quisesse a companhia dos amigos distantes, que ligasse para eles. Em compensação, me aventurei por várias experiências diferentes. Escrevi manualmente um roteiro de um seriado de televisão com 770 páginas. E muitas vezes fora do meu quarto, coisa inédita até então. Conheci lugares da cidade que sequer tinha imaginado que existiam. Senti a liberdade de caminhar sem rumo, contemplei o tempo parado, os momentos de refletir o que eu queria para a minha vida, qual profissão seguir, o que estudar, o que fazer.  

Agora aos 27 anos é diferente. E normal. Não sinto mais aquela necessidade de definir caminhos, preciso apenas seguir em frente. Ainda estou digitando aquele mesmo roteiro – a passos bem lentos, quando tenho paciência. Caminho pelas ruas rumo a algum compromisso, ou a fim de ir logo para casa. Cansei de teorias. Preciso de doses de pragmatismo. Sinto-me sereno, capaz de controlar melhor as minhas ações. Falo com meus amigos pela internet, de vez em quando os vejo pessoalmente, mas não sofro de solidão. Amores, pegações, isso nunca foi o meu forte mesmo. Mas ainda sim, tem tomado os seus rumos...

Mas esse vazio estranho... Ah! É o mesmo. Talvez seja ainda mais profundo. É como se um solo de piano tocasse a todo tempo na minha cabeça. Sinto como se caminhasse em meio a uma terra seca, mas fria. Planto sementes. Sento e espero aparecer alguma coisa. Enquanto isso carrego-me no colo como um troféu e um fardo, amando os dois do mesmo jeito. E aquele tipo de silêncio ouvido somente na sala de reflexões me acompanha como uma capa pendurada nos meus ombros. Mas me sinto elegante com ela.

Até lá, continuo no delírio. Mas é bom. Pelo menos sinto novamente o sangue correr nas minhas veias, o meu peito respirando e tendo vontades. Me sinto humano. Live. Tenho certeza que muitas pessoas gostariam de ter esse tempo para também se sentir gente. Por isso, apesar de vazio, tenho que admitir que o meu coração nesta terra nova está mais em paz.

Que venham os tijolos.

Danilo Moreira

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Foto:  http://jhmedeiros23.blogspot.com.br/2013/02/peregrino.html

3 comentários:

JEANN DFL disse...

As vezes esse vazio não é a falta de algo, mas o eterno ímpeto do ser humano de continuar buscando sempre o melhor pra si. A força motriz que nos impulsiona. Quem se sente completo e realizado, mais nada há para fazer nessa vida além de esperar a morte! ;)

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http://guildacop.blogspot.com.br/2013/03/peregrino-do-desejo.html

tha helena disse...

danilo vc escreve muito bem, parabens
adorei seu texto e concordo plenamente que venham os tijolos

Li Melo disse...

Acho que esse vazio é natural. Acontece sempre que concluímos algo nos preparamos ou não para trilhar novos caminhos. No fim das contas, tudo é válido. O que somos é a mistura das experiências (boas e ruins) e das expectativas.
Texto lindo!
Beijos.

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