terça-feira, 8 de março de 2011

Homem é tudo bobo...


Enxugou os seus olhos. Estava chorando por causa do filme que tinham acabado de assistir, no cinema da cidade. Caminhando pela rua já à noite, Cleiton abraçava a esposa com toda a proteção e cuidado que um homem poderia oferecer a uma mulher. E ele ria dentro de si mesmo: “Como essas mulheres são frouxas”.

- Ai Cleiton, já pensou? Coitado daquele menino! Assassinado daquele jeito pelo padrasto! Ai, só de pensar que isso acontece tanto por ai eu até fico...

- Eu sei, amor. Mas ali é só filme. Você não precisa ficar assim. É tudo mentira.

- Ai eu sei, amor. Mas parece tão real... Dá dó do menino...

- Olha, que tal irmos tomar um sorvete, hein? Assim você relaxa, e esquece isso.

- Acho melhor não. Já está tarde, é melhor voltarmos para casa. Amanhã preciso acordar cedo. Deixemos para outro dia.

- Tem certeza?

- Absoluta. E até já me sinto melhor. O filme é ótimo, mas foi só aquela cena do menino que me deixou impressionada.

- Mas relaxa. Está tudo bem. Vamos então para casa.

Chegando lá, Irene foi direto para o banheiro tomar um banho. Cleiton foi para o quarto do casal, já arrumar a cama para dormirem.

Sentou-se na cama. Riu sozinho. Como mulher se impressionava fácil com as coisas! Se lembrou do velho clichê “mulher, sexo frágil”. Cleiton sabia que esse bordão, na verdade, era piada, mas em matéria de emoções, talvez, elas realmente fossem mais vulneráveis. Irene chorava em vários filmes. Já Cleiton, homem criado para não chorar, mantinha-se intacto. Em certos momentos, era difícil se manter assim, sem derrubar nenhuma lágrima, mesmo comovido por dentro. Querendo ou não, ele também tinha sentimentos, e estes, quando vem, não pedem licença, já aparecem de surpresa. Mesmo assim, Cleiton se sentia na obrigação de manter-se firme, principalmente ao lado da esposa, pois quando esta quisesse chorar, ele estaria lá, pronto para ampará-la, assim como seu pai fazia com a sua mãe.

- É... mulher gosta mesmo é de um homem para se sentir protegida. Que mal tinha ver uma cena de filme onde de uma criança, um ator-mirim, sendo espancada e morta pelo padrasto, que também é um simples ator? É só um filme de suspense, nada de mais! O garoto está por aí, vivo, famoso, ganhando dinheiro com o espanto e as lágrimas de mulheres como ela. E ela aqui, chorando por ele. Tudo bem que infelizmente essas mortes covardes acontecem...

E então, nesse momento, seu semblante mudou. Ficara sério. Do fundo de sua memória, uma história dos seus tempos de infância veio de repente bem na frente dos seus olhos, dominando, em poucos minutos, todo aquele quarto:

- ... Nossa, me lembro como se fosse hoje! Eu, criança, brincando com o Caio, meu grande amigo de infância. A gente empinando pipa até altas horas... Aquela voz grossa e bruta o chamando para entrar... Ele pálido, olhando pra mim e dizendo que não queria ir... Aquele braço grosso, peludo, aquele cheiro de cachaça, surgindo e arrancando ele da minha frente... Aqueles gritos... Aqueles socos... Aqueles chutes... Aquele mão apertando a garganta dele... Para quê fazer aquilo com o moleque, meu Deus? Ele era só uma criança... Uma criança que morreu de tanto apanhar... De tanto apanhar... E eu não pude fazer nada para ajudar o meu amigo! Velho desgraçado! Aquele brutamontes deveria ter sido pego de surra... Se eu fosse maior... Nem preso aquele filho-da-mãe foi... Pobre Caio! Tenho certeza que de onde quer que você esteja, deve estar olhando por mim. Ah, Caio...

Irene saiu do banho. Estava mais tranqüila. Riu sozinha do seu choro por causa de um simples filme de suspense. “Como eu sou besta”, pensava. Vestiu-se, pegou a toalha e foi para o quarto. Chegando lá, parou, e olhou para a cama do casal.

- O que foi, querido?

E Cleiton estava sentado no pé da cama, com o olhar distante, encolhido e com a cabeça nos joelhos, com lágrimas escorrendo dos olhos. Ao ver a esposa, virou a cabeça para o lado, se enxugou com o braço, e tentou disfarçar.

- Não foi nada. Só estou com muito sono.
Irene sorriu. Ela conhecia bem o marido que tinha. Sentou ao seu lado, pegou a sua cabeça, e delicadamente, o deitou em seu colo.

- Homem é tudo bobo. Tenta dar uma de durão, disfarçar que não está bem, mas quando uma mulher o ama, jamais consegue enganá-la... Me fala o que aconteceu, vai.

Ele sorriu. No que adiantava enganá-la? Saber quando um homem não está bem... Nisso, realmente, elas eram craques. Contou a dor que carregava dentro de si há tantos anos. Irene o ouviu, palavra por palavra, com os olhos bem atentos, acariciando o peito dele. Abraçou-o com toda a delicadeza e cuidado. Minutos depois, Cleiton já dormia confortavelmente em seu colo, tão frágil como uma criança, tão amado quanto um filho, e tão bobo quanto um homem.

Danilo Moreira
© 2011

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FOTO: http://plumuarte.blogspot.com/2011/01/quando-um-homem-chora.html

8 comentários:

Gilson Alves disse...

Falava esses dias com meu amigo: Todo homem precisa de uma mulher. A Figura materna nós tentamos carregar para o resto da vida, de uma forma ou de outra. Para aqueles que já perderam a mae, a vê de certa forma da esposa, na amiga, na irma... Um homem sempre precisa de uma mulher, o contrário do que elas pensam, acreditando q elas q precisam de nós!

gilsonalvess.blogspot.com
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gilSon alvess

Hugo de Oliveira disse...

Muito bom seu texto.

abraços

Sônia disse...

Gostei muito do seu texto, pois expõe a fragilidade das pessoas, e não de seus sexos. Parabéns!

Srta. Claudinha Chagas disse...

Muito bom o texto, concordo com a Sônia ao falar sobre a fragilidade das pessoas independentemente de sexo.
Parabéns Dan ^^

Maryanne disse...

Ual, muito bom esse post. Adorei, achei super interessante e gostaria de perguntar se posso postar em meu blog (colocando seus créditos, claro!). Criei um blog à pouco tempo e estou postanto um pouco de tudo que gosto. Como gostei do seu blog, achei muitas coisas interessantes. Enfim, se me permitir mande-me um e-mail maryanne_forever@hotmail.com Beijos.

Wesley Almeida disse...

Realmente muito bom, mostra que as mulheres não são o unico sexo fragil, quero dizer todo mundo tem seu lado fragil que precisa de alguem ao seu lando.

Wesley Almeida disse...

Realmente muito bom, mostra que as mulheres não são o unico sexo fragil,quero dizer que todo mundo tem seu lado frágil que precisa de alguem para ajudar.

Javier Zamora disse...

Buena historia, me dejo un cosquilleo en la garganta. Creo soy uno de aquellos hombres sensibles.

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