sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Eu gosto de mulher


– Aqui no quarto podemos conversar. Aconteceu alguma coisa, filho?

– Bem... Lembra quando eu era pequeno, e adorava brincar de casinha, detestava jogar futebol com os amigos, e vivia brincando com as meninas da rua? E na adolescência, quando eu colecionava posters do Backstreet Boys, dançava com todo aquele rebolado, e sempre comentava da roupa das meninas?

– S-Sei. O que tem?

– Bem... Eu só fiz aquilo pra agradar vocês, mas na verdade não tem nada a ver comigo. Na verdade... Eu quero dizer que... a partir de hoje, eu estou me assumindo com um... Heterossexual.  

– O QUÊ?

– Sim, um heterossexual. Eu gosto de mulher.

– Você é louco? Ficou ruim das ideias? Quer que te chamem de homofóbico por aí?

– Mas eu não tenho nada contra os homossexuais. Pelo contrário. Acho bacana que exista essa diversidade. Eu só estou dizendo que eu gosto de mulher.

– Para com isso, filho! Pelo amor de Deus! Não foi essa criação que eu te dei! As pessoas têm liberdade para serem o que quiserem. Não existe mais essa de “Eu gosto de mulher! Eu gosto de mulher”! Isso pega mal hoje em dia! Parece que você foi vítima dessa cultura arcaica em que homem tem que se afirmar como "macho" o tempo todo! Nós somos uma família moderna, aceitamos todas as diferenças. E você falando com esse orgulho todo que gosta de mulher chega a ser ofensivo! Fala sério, pra você dizer isso, é porque na verdade curte é um homem, mas tem vergonha de admitir, vai!

– Não, pai, eu realmente gosto de mulher! É sério! E eu não quero ofender ninguém. Eu só toquei nesse assunto porque eu não aguento m...

– Nós o criamos para ter a mente aberta para tudo! Qual a parte disso você ainda não entendeu? Não queremos ser taxados por aí de conservadores e preconceituosos. Prezamos pela liberdade, meu filho, pelo direito de cada um amar quem quiser! Mas isso que você está fazendo é ridículo!

– Mas pai...

– Chega! Pegue todo esse seu machismo e suma daqui!

***

– Isso aí, rapaz! Tem que afirmar mesmo que gosta de mulher! Esse mundo anda muito moderninho pro meu gosto!

– Mas vô, eu apenas comentei que gosto de mulher porque eu estou cansado de ser rotulado por causa das minhas roupas, pelo meu jeito de ser. Não me importa o que os outros gostam. Eu respeito a orientação sexual de todo mundo.

– Para com isso, filho! Fala a verdade! Você foi muito corajoso ao ter falado isso pro seu pai, que é todo metido a moderninho. Isso não é normal! Deus fez o homem para gostar de mulher e vice-versa!

– Eu acho normal sim um cara ficar com outro homem. E eu sou ateu, vô.

– Não importa. Pra mim o que vale é que você é macho, mesmo com essas roupas, esse jeito de falar afeminado, pelo menos você tá indo contra essa “onda” toda e se afirmando como o homem que devemos ser!

– Mas não tem nada a ver. Eu só quero ser EU mesmo!

– Chega de papo! Vamos ao jogo no Pacaembu amanhã. Você precisa de mais testosterona...

O rapaz bufou. Achou inútil tentar explicar... Trancou-se no seu quarto, e excitado com o corpo de uma morena nua em um site pornô, tirou os tênis, despiu-se da camiseta e da saia de couro preferida que usava. Precisava relaxar ao máximo, pelo menos para aliviar aquela estranha sensação de não pertencer a este mundo...

Danilo Moreira

Gostou do blog? Então, não o perca de vista. Assine o feed, adicione nos seus favoritos ou seja um seguidor. Obrigado pela visita ao Ponto Três. 

FOTO: http://br.freepik.com

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A Mesma



Levantou da cama com a mesma vontade de caminhar.
Voltou pregado na mesma cruz que insiste em carregar.


Danilo Moreira

Gostou do blog? Então, não o perca de vista. Assine o feed, adicione nos seus favoritos ou seja um seguidor. Obrigado pela visita ao Ponto Três.

Foto: http://br.freepik.com

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Louca vida


Louca, louca vida,
Montanha russa de sentimentos.
Da queda que vira salto.
Do recato que se torna imoral.
Doces surpresas ao lado de amargos silêncios.
Controles de passos ao lado de descompassos perversos.
Essa louca que nos tece com o tempo.
Muda cores, rostos, sabores e desejos.
Vai, continue a me provocar com essas vitrines,
Que eu, como bom consumidor que tento ser,
Vou medindo os preços que posso pagar.

Que posso,
E devo pagar.

Danilo Moreira

Gostou do blog? Então, não o perca de vista. Assine o feed, adicione nos seus favoritos ou seja um seguidor. Obrigado pela visita ao Ponto Três. 

Foto: Google

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Portugueis

Quando foi postado em 2007 no meu antigo blog "Em Linhas...", esse poema criou polêmica nos comentários. É uma pequena alfinetada bem humorada no português nosso de cada dia, no auge de Seu Creysson (Claudio Manoel) do extinto Casseta e Planeta Urgente. Após cinco anos e uma reforma ortográfica mal aceita, será que alguma coisa mudou? Ou piorou?


Eu escrevo errado portugueis
Prusque eu num sou portugueis
Eu sou brasileiro e falo brasileiro
Portugueis não tem pizza
Num tem cachaça
Num tem catimba
Num tem tchau
Num tem bucho

E nóis escreve assim por que nóis é gente dessas gente
Dessas gente q tem colegial compreto, mais num sabe leitura direito
Dessas gente q trabaia todos sol e todas lua
Dessas gente q paga mais conta que acumula
Dessas gente tão gente como a gente

Se tu num gostou do meu brasileiro
Intaum ache coisa melhor
Por que eu sou o que sou
E de quem falo num tenho dó
Se tu quer melhorar alguma coisa
Largue de gasta o seu gogó
Dá os teus pulo cumpade!

Num tenho tempo pra intende de economia
Num tenho saco pra ler pulitica
Num tenho tempo nem pra ler Casmurro

Mas sabe... té q tenho curiosidade...

Danilo Moreira

Texto adaptado. Versão original publicada em 12 de outubro de 2007, no blog "Em Linhas..." 

Gostou do blog? Então, não o perca de vista. Assine o feed, adicione nos seus favoritos, ou seja um seguidor. Obrigado pela visita ao Ponto Três. 

Foto: http://images.uncyc.org/pt/thumb/0/0c/Creysson.jpg/200px-Creysson.jpg

domingo, 28 de julho de 2013

Quando vamos protestar contra o Individualismo?


Agora escrevo em uma madrugada fria de domingo, ouvindo uma rádio que curto muito para conseguir me concentrar, enquanto lá fora, altas batidas de funk carioca estremecem a janela e não deixam meus familiares e outros vizinhos dormirem. Não é de hoje, nem de ontem, nem de semana passada que essa cena se repete, mesmo com denúncias. E nem será “de amanhã”. Quem se importa com o descanso dos outros quando está satisfazendo as suas próprias necessidades? E experimente reclamar para ver. Você está errado, sempre.

Certas situações que vivi nas últimas semanas me fizeram pensar o quanto a sociedade brasileira se transforma em determinado aspecto, mas por outro lado, continua a mesma coisa. Veja abaixo algumas junções que fiz de coisas que li e ouvi nessas últimas semanas:

“Eu quero protestar contra o Estado, então preciso ir contra tudo que ele representa. Vou quebrar bancos, carros de imprensa, bancas de jornal, lojas, concessionárias (afinal, é tudo comercio, é tudo burguesia, não?). Danem-se os prejuízos, o Estado foi atingido. O Estado faz coisa muito pior conosco todos os dias. Só assim pra nos ouvirem!”

“Eu faço parte de uma minoria que foi há anos perseguida e hostilizada pela Igreja ou outras religiões, vou atingir os seus símbolos para mostrar que não me dobro a eles. Vou quebrar santos, vou ficar seminu e beijar meu par na frente de todos, é pra chocar! Vou xingar os peregrinos, afinal, eles fazem parte dessa raça alienada, preconceituosa, que ainda promove a segregação das minorias. Vou obter respeito assim! Só dessa forma vão nos ouvir!”

 “Sou religioso, homem de Deus, vou repudiar esse povo moderninho que quer ser gay, lésbica. Isso não é de Deus! É aberração!”

“Sou a favor desse partido, tudo que o outro faça pela minha cidade, não importa, não presta, não vale, não me representa, eu quero mesmo é o meu partido no poder porque ele vai melhorar esse país.”

“[Discorda de mim em qualquer um desses pontos?] Você é um alienado! ALIENADO! A-LI-E-NA-DO (banalizaram essa palavra?)! Vai estudar! Sai do Facebook! Vai pra rua!”

Ou, indo para o âmbito pessoal:

“Se o meu filho aprontou algo na escola e a professora o repreendeu, a culpa não é do meu filho, é da escola que não soube educá-lo. Puni-lo? Claro que não. Eu educo. Ele errou, mas quem não erra, mesmo que o erro dele tenha sido um crime, mas é meu filho! A culpa é do Estado que não dá educação decente!”

“Eu não quero saber da sua vida, mas poxa, custa ME ouvir todas as vezes que me ligar para ouvir os MEUS problemas? Mas eu ouvi o que você me falou (você falou o quê mesmo?), mas agora ME escuta, deixe EU desabafar, deixar EU falar de MIM!

“Se eu encontrar um amigo meu numa fila de ônibus e ele me chamar, eu entro e furo, que sorte! Ei, olha aquela vaca furando fila lá na frente! Eu já estava aqui, não aceito isso! Falta de respeito!”

 “EU quero um namorado que ME ouça, ME compreenda, seja gentil COMIGO, ME ame, ME respeite, ME encha de mimos, repare no MEU cabelo, na MINHA roupa, etc.”

“Eu quero uma namorada gostosa, que ME compreenda, ME respeite, ME deixe livre, seja MINHA companheira...”.

Já viu/ouviu todas essas frases em algum lugar?

Posso colocar diversas cenas que você já viu (como eu) ou até já viveu (como eu). Mas o que todas elas têm em comum? A prioridade se torna o “eu”, mesmo que seja um grupo em que eu faço parte, mas tudo parte do “eu”, do indivíduo, do que ele gosta e acredita. Não se pensa nas crenças, gostos e direitos do próximo. Não se coloca no seu lugar. Os MEUS direitos se tornam mais importantes que os seus direitos, mas os SEUS deveres comigo são, para mim, mais importantes que os seus direitos. A vontade de chamar a atenção para os próprios problemas ultrapassa até mesmo os objetivos coletivos. Estes podem, na verdade, conter um punhado de manifestações individualistas (veja bem, não estou generalizando!) em busca do melhor para si ou para seu grupo, mas não o que de fato é o melhor para TODOS. Se precisar prejudicar o próximo para conseguir o que é melhor para a sociedade (PARA MIM!), dane-se, o importante é chamar a atenção para a nossa (MINHA!) causa, a nossa (MINHA!) opinião, o nosso (MEU!) ponto de vista, os nossos (MEUS!) direitos. Argumentos? Tá na Bíblia (que EU acredito), na História (até onde EU conheço!), na MINHA experiência de vida, em tudo aquilo que EU sofri, etc. E proclamam-se intelectuais santificados contra o "diabo da Alienação", que alguns (eu, não) apelidaram carinhosamente de "TV Globo" ou de "Entretenimento" (porque hoje em dia é feio se entreter, certo?). Essa é a tal "consciência enquanto cidadão"?

Estou expondo tudo isso para dizer que por mais que a sociedade brasileira tenha buscado lutar pelos seus direitos, isso não significa que todos ali despertaram para um sentimento real de coletividade. O individualismo continua firme, predominante, intrínseco, através de cada voz que ataca a opinião contrária e o caráter do outro sem ouvir os argumentos, de cada um que passa por cima do respeito, da crença, dos direitos, do trabalho e da vida alheia para atingir seus objetivos, e até na mania de sempre culpar tudo e a todos mas não olhar para os seus próprios erros.

Quando vamos protestar contra o individualismo?

Danilo Moreira

Gostou do blog? Então, não o perca de vista. Assine o feed, adicione nos seus favoritos ou seja um seguidor. Obrigado pela visita ao Ponto Três.

FOTO: http://averdadenomundo.blogspot.com.br/2012/12/a-hierarquia-do-treinamento-do-ego.html
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...