quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A Mesma



Levantou da cama com a mesma vontade de caminhar.
Voltou pregado na mesma cruz que insiste em carregar.


Danilo Moreira

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Foto: http://br.freepik.com

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Louca vida


Louca, louca vida,
Montanha russa de sentimentos.
Da queda que vira salto.
Do recato que se torna imoral.
Doces surpresas ao lado de amargos silêncios.
Controles de passos ao lado de descompassos perversos.
Essa louca que nos tece com o tempo.
Muda cores, rostos, sabores e desejos.
Vai, continue a me provocar com essas vitrines,
Que eu, como bom consumidor que tento ser,
Vou medindo os preços que posso pagar.

Que posso,
E devo pagar.

Danilo Moreira

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Foto: Google

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Portugueis

Quando foi postado em 2007 no meu antigo blog "Em Linhas...", esse poema criou polêmica nos comentários. É uma pequena alfinetada bem humorada no português nosso de cada dia, no auge de Seu Creysson (Claudio Manoel) do extinto Casseta e Planeta Urgente. Após cinco anos e uma reforma ortográfica mal aceita, será que alguma coisa mudou? Ou piorou?


Eu escrevo errado portugueis
Prusque eu num sou portugueis
Eu sou brasileiro e falo brasileiro
Portugueis não tem pizza
Num tem cachaça
Num tem catimba
Num tem tchau
Num tem bucho

E nóis escreve assim por que nóis é gente dessas gente
Dessas gente q tem colegial compreto, mais num sabe leitura direito
Dessas gente q trabaia todos sol e todas lua
Dessas gente q paga mais conta que acumula
Dessas gente tão gente como a gente

Se tu num gostou do meu brasileiro
Intaum ache coisa melhor
Por que eu sou o que sou
E de quem falo num tenho dó
Se tu quer melhorar alguma coisa
Largue de gasta o seu gogó
Dá os teus pulo cumpade!

Num tenho tempo pra intende de economia
Num tenho saco pra ler pulitica
Num tenho tempo nem pra ler Casmurro

Mas sabe... té q tenho curiosidade...

Danilo Moreira

Texto adaptado. Versão original publicada em 12 de outubro de 2007, no blog "Em Linhas..." 

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Foto: http://images.uncyc.org/pt/thumb/0/0c/Creysson.jpg/200px-Creysson.jpg

domingo, 28 de julho de 2013

Quando vamos protestar contra o Individualismo?


Agora escrevo em uma madrugada fria de domingo, ouvindo uma rádio que curto muito para conseguir me concentrar, enquanto lá fora, altas batidas de funk carioca estremecem a janela e não deixam meus familiares e outros vizinhos dormirem. Não é de hoje, nem de ontem, nem de semana passada que essa cena se repete, mesmo com denúncias. E nem será “de amanhã”. Quem se importa com o descanso dos outros quando está satisfazendo as suas próprias necessidades? E experimente reclamar para ver. Você está errado, sempre.

Certas situações que vivi nas últimas semanas me fizeram pensar o quanto a sociedade brasileira se transforma em determinado aspecto, mas por outro lado, continua a mesma coisa. Veja abaixo algumas junções que fiz de coisas que li e ouvi nessas últimas semanas:

“Eu quero protestar contra o Estado, então preciso ir contra tudo que ele representa. Vou quebrar bancos, carros de imprensa, bancas de jornal, lojas, concessionárias (afinal, é tudo comercio, é tudo burguesia, não?). Danem-se os prejuízos, o Estado foi atingido. O Estado faz coisa muito pior conosco todos os dias. Só assim pra nos ouvirem!”

“Eu faço parte de uma minoria que foi há anos perseguida e hostilizada pela Igreja ou outras religiões, vou atingir os seus símbolos para mostrar que não me dobro a eles. Vou quebrar santos, vou ficar seminu e beijar meu par na frente de todos, é pra chocar! Vou xingar os peregrinos, afinal, eles fazem parte dessa raça alienada, preconceituosa, que ainda promove a segregação das minorias. Vou obter respeito assim! Só dessa forma vão nos ouvir!”

 “Sou religioso, homem de Deus, vou repudiar esse povo moderninho que quer ser gay, lésbica. Isso não é de Deus! É aberração!”

“Sou a favor desse partido, tudo que o outro faça pela minha cidade, não importa, não presta, não vale, não me representa, eu quero mesmo é o meu partido no poder porque ele vai melhorar esse país.”

“[Discorda de mim em qualquer um desses pontos?] Você é um alienado! ALIENADO! A-LI-E-NA-DO (banalizaram essa palavra?)! Vai estudar! Sai do Facebook! Vai pra rua!”

Ou, indo para o âmbito pessoal:

“Se o meu filho aprontou algo na escola e a professora o repreendeu, a culpa não é do meu filho, é da escola que não soube educá-lo. Puni-lo? Claro que não. Eu educo. Ele errou, mas quem não erra, mesmo que o erro dele tenha sido um crime, mas é meu filho! A culpa é do Estado que não dá educação decente!”

“Eu não quero saber da sua vida, mas poxa, custa ME ouvir todas as vezes que me ligar para ouvir os MEUS problemas? Mas eu ouvi o que você me falou (você falou o quê mesmo?), mas agora ME escuta, deixe EU desabafar, deixar EU falar de MIM!

“Se eu encontrar um amigo meu numa fila de ônibus e ele me chamar, eu entro e furo, que sorte! Ei, olha aquela vaca furando fila lá na frente! Eu já estava aqui, não aceito isso! Falta de respeito!”

 “EU quero um namorado que ME ouça, ME compreenda, seja gentil COMIGO, ME ame, ME respeite, ME encha de mimos, repare no MEU cabelo, na MINHA roupa, etc.”

“Eu quero uma namorada gostosa, que ME compreenda, ME respeite, ME deixe livre, seja MINHA companheira...”.

Já viu/ouviu todas essas frases em algum lugar?

Posso colocar diversas cenas que você já viu (como eu) ou até já viveu (como eu). Mas o que todas elas têm em comum? A prioridade se torna o “eu”, mesmo que seja um grupo em que eu faço parte, mas tudo parte do “eu”, do indivíduo, do que ele gosta e acredita. Não se pensa nas crenças, gostos e direitos do próximo. Não se coloca no seu lugar. Os MEUS direitos se tornam mais importantes que os seus direitos, mas os SEUS deveres comigo são, para mim, mais importantes que os seus direitos. A vontade de chamar a atenção para os próprios problemas ultrapassa até mesmo os objetivos coletivos. Estes podem, na verdade, conter um punhado de manifestações individualistas (veja bem, não estou generalizando!) em busca do melhor para si ou para seu grupo, mas não o que de fato é o melhor para TODOS. Se precisar prejudicar o próximo para conseguir o que é melhor para a sociedade (PARA MIM!), dane-se, o importante é chamar a atenção para a nossa (MINHA!) causa, a nossa (MINHA!) opinião, o nosso (MEU!) ponto de vista, os nossos (MEUS!) direitos. Argumentos? Tá na Bíblia (que EU acredito), na História (até onde EU conheço!), na MINHA experiência de vida, em tudo aquilo que EU sofri, etc. E proclamam-se intelectuais santificados contra o "diabo da Alienação", que alguns (eu, não) apelidaram carinhosamente de "TV Globo" ou de "Entretenimento" (porque hoje em dia é feio se entreter, certo?). Essa é a tal "consciência enquanto cidadão"?

Estou expondo tudo isso para dizer que por mais que a sociedade brasileira tenha buscado lutar pelos seus direitos, isso não significa que todos ali despertaram para um sentimento real de coletividade. O individualismo continua firme, predominante, intrínseco, através de cada voz que ataca a opinião contrária e o caráter do outro sem ouvir os argumentos, de cada um que passa por cima do respeito, da crença, dos direitos, do trabalho e da vida alheia para atingir seus objetivos, e até na mania de sempre culpar tudo e a todos mas não olhar para os seus próprios erros.

Quando vamos protestar contra o individualismo?

Danilo Moreira

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FOTO: http://averdadenomundo.blogspot.com.br/2012/12/a-hierarquia-do-treinamento-do-ego.html

domingo, 21 de julho de 2013

Dicas de segurança


– Essa cidade anda muito violenta, cara...

– Demais, brother. A qualquer momento você pode morrer de bobeira, por motivo banal.

– Por isso que eu resolvi te dar essas dicas que vou passar agora. Vai por mim, eu entendo de segurança. Não tem erro.

– Certo.

– Em primeiro lugar, quando sair de casa, olhe bem ao redor. Pode ter alguém em qualquer canto, observando a sua rotina na espera do momento certo para atacar. Evite comentar a sua vida com vizinhos. Nunca se sabe o que se passa na cabeça deles. Evite colocar algo no bolso quando estiver na rua. Dá a impressão tem algo de valor. Guarde o celular numa parte que nunca está visível.

– Mas e se eu estiver só de camiseta e bermuda?

– Esconda no tênis.

– Mas e se eu estiver de chinelo?

– Ah, coloque na cueca. O importante é que não esteja à vista. E nunca, nunca atenda o celular na rua. Se puder deixe a campainha apenas no modo vibra, assim ninguém fica sabendo que você tem aparelho, certo? Nada de ouvir música, nem no transporte público. Se quiser ouvir música, ouça em casa.

– Ahn... Certo...

– Outra coisa: se levar dinheiro, guarde notas em várias partes do corpo. Assim não tem perigo de alguém bater a sua carteira e levar tudo. Se puder, leve também uma carteira falsa em um bolso estratégico. E não ande com pouquíssimo dinheiro. Tem gente que morre assim, o bandido se irrita com poucos reais.

– Entendi.

– Se alguém lhe parar na rua, não importa o motivo, não pare, não dê confiança.

– Ninguém? Nem se uma pessoa, por exemplo, bem vestida, cara de que não faz mal a ninguém, me perguntar apenas onde fica tal rua, ou as horas? Eu gosto de ajudar.

– Não, ninguém. Não viu outro dia uns engravatados assaltando o povo lá no Centro? Não fale com ninguém. Siga o seu caminho. E se alguém o parar, mesmo que for por segundos, olhe para os lados, ponha as mãos nos bolsos para dar a entender que está de olho em seus pertences.

– Mas e se for um amigo meu?

– Cumprimente de longe. Não parem em locais públicos para conversarem. Nessa, alguém podem estar de olho em você e com a distração, vocês dois serão as vítimas. Outra coisa: use roupas discretas. Nada de cores chamativas. Dependendo de onde passar, nem vá muito arrumado para não ostentar um status falso. Deixe para os compromissos profissionais. E mesmo assim, se não puder evitar, caminhe muito rápido para ser o menos visto possível.

– Tá...

– Grude a mochila no corpo. Ande com ela na frente, se puder. Nunca a use nas costas ou de lado. Um criminoso conhece vários golpes para arrancá-la facilmente de você. E guarde coisas de valor nos bolsos mais fundos. Se puder amarre os zíperes com algo que dificulte a sua abertura.

– Mas, até pra mim ficaria difícil depois abrir e fechar...

– Melhor ferrar com a sua mão do que perder tudo de uma hora para outra, não?

– É... Verdade...

– Na balada, vá com muitos amigos. E só puxe conversa com quem você sente confiança. Não beba nada que te oferecerem. Pode ser o golpe do “boa noite, Cinderela”. Aliás, falando em diversão, esqueça essa coisa de sentar em algum banco de praça para relaxar, ler um livro, ver a vida, descansar. É dar sorte para o azar. Hoje em dia esses espaços públicos só são utilizados por viciados em crack e trombadinhas. Nós temos as nossas casas para isso. Tem muito assalto acontecendo em parque também. Mesmo assim se for neles, coloque seus pertences colados ao seu corpo e nunca deixe de olhar para os lados.

– Entendi.

–Ah, e se alguém bater no seu portão atenda à distância. Nunca permita que entrem em sua casa. Se for alguma visita, abra o portão mas sempre de olho nos arredores. Essa pode ser a oportunidade para invadirem a sua residência. Tenha o telefone sempre perto caso ouça algum barulho estranho em seu quintal. 

– Sei lá, acho isso tudo meio paranoia... Parece um cão com as orelhas sempre em pé...

– Nada disso. É melhor prevenir do que remediar. Você sabia que a maioria dos furtos acontece por causa da distração da pessoa? Quantas vezes eu e você já vimos gente com a carteira quase caindo do bolso? Ou mexendo tranquilamente num chamativo iPhone em locais com muito movimento? Não adianta, não podemos relaxar. Tudo que temos foi pago com o nosso suor, enquanto pra esse povo que nos rouba, nem a nossa vida vale. Aprenda isso, amigo, são os tempos atuais. Vivemos em uma selva. Temos que nos proteger o tempo todo. Sempre terá alguém à espreita para te roubar alguma coisa, te fazer algum mal. Ninguém liga para os prejuízos do próximo.  

– É, talvez... Mas sei lá. Fale a verdade, mesmo com todos esses cuidados, você realmente acha que vou VIVER mais seguro?

– Bem... Depende. Se você tiver no lugar errado e na hora errada e levar uma bala perdida... Não viu no Datena aquele caso do rapaz dormindo na cama, num sobrado, que levou um tiro?

– Sim... O papo está bom, mas preciso ir. Pode deixar que eu pago a conta.

– Obrigado. Faz bem em ir embora agora. Tá tendo muito arrastão em restaurante e barzinhos nessa hora. Mas tome cuidado no caminho pra casa também. Aumentaram os latrocínios... E quando abrir a carteira, faça-o sempre de costas para a rua. Aquele pessoal sentado ali, no bar do outro lado da rua, pode estar de olho no que você tem de valor.

– Eh... Ok. Obrigado pelas dicas. Me sinto mais tranquilo, eu acho...

– E tem mais...

– Amigo, desculpe te interromper mas eu preciso te dizer uma coisa..

– O que?

– Você tá muito abatido...

– É que eu ando tendo insônia. Também, ando muito estressado. Não consigo relaxar. Faz muito tempo que eu não vinha em barzinho. Acho que não vou durar muito.

A risada quis demonstrar que isso tinha sido uma piada, mas o outro amigo não riu. Do jeito que ele ia, podia ser verdade...


Danilo Moreira

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