segunda-feira, 15 de julho de 2013

Antes e Depois - Atriz de "Corra, Lola, Corra"

Corra, Lola, Corra (1998)

Uma corrida contra o tempo. Objetivo: recuperar, em 20 minutos, o dinheiro que o namorado deve a uma quadrilha. Câmeras enlouquecidas, trilha sonora frenética, imagens alucinantes e três desfechos diferentes da mesma história. Quem assistiu o filme “Corra, Lola, Corra” (Lola Rennt - 1998), produção alemã assinada pelo diretor Tom Tykwer, sempre vai lembrar daquela garota de cabelos avermelhados e desgrenhados numa corrida faz até o espectador acelerar a respiração. E hoje, a Sessão Antes e Depois vai falar um pouco da atriz que deu vida (e fôlego!) à garota mais “São Silvestre” do Cinema. 

Franka Potente nasceu em 22 de julho de 1974 em Münster, Alemanha. É filha de uma enfermeira, um professor e é a mais velha de dois irmãos. Cresceu na cidade vizinha Dülmen. Seu sobrenome vem do seu bisavô italiano, um siciliano que imigrou para o país no século XIX. Aos 17 anos, decidiu terminar seus estudos fazendo intercambio em Houston, Texas, nos Estados Unidos. O desejo de ser atriz, que já se manifestava desde pequena, começou a criar corpo naquele país.

Em 1994, de volta à terra natal, matriculou-se na Otto Falkenberg School of Performing Arts, uma escola de Artes Cênicas, em Munique, enquanto fazia bicos fora do horário de estudos. Sua primeira aparição foi em “Aufbruch” (1995), filme montado por estudantes. Pouco tempo depois, foi descoberta por uma agente no banheiro de uma boate. Estreou profissionalmente com a personagem Anna no filme “Nach Funf im Urwald”, dirigido pelo então namorado Hans Christian Schmid. O desempenho lhe rendeu elogios da crítica e o prêmio Bavarian Film Prize 1995 para Jovens Talentos.

Potente concluiu seus estudos na Lee Strasberg Theater Institute em Nova York e voltou à Europa em 1997. Passou a atuar em produções televisivas e cinematográficas da Alemanha e também da França. Em 1998, seu currículo já somava 13 trabalhos.

Tom Tykwer e Franka Potente
No mesmo ano, seu nome foi lançado mundialmente com o papel de Lola no filme que leva o nome da personagem. Como também é cantora, também compôs algumas músicas para o longa. Somente na Alemanha “Corra, Lola, Corra” arrecadou US$22 milhões. A produção recebeu vários prêmios como a Sundance Film Festival (1998) na categoria de Melhor Filme – Voto Popular e melhor filme estrangeiro pela Independent Spirit Awards (1999). Dentre as indicações, Melhor Filme Estrangeiro pela British Academy of Film & Television Arts (BAFTA) e 2º Grande Prêmio Cinema Brasil (2001). Na terra do Tio Sam, foi bem recebido pela crítica no Festival de Cinema de Toronto, o que abriu as portas da indústria norte-americana para a atriz.

Franka, porém, concentrou seus trabalhos na Alemanha, principalmente o filme de terror “Anatomie” (2000) e “The Princess and the Warrior” (2000).  No cinema norte-americano, atuou em “Storytelling” (2001), em “Blow” (Profissão de Risco), ao lado de Johnny Depp, no papel de Barbara Buckley; em “A Identidade Bourne” (2002) e “A Supremacia Bourne” (2004) como Marie Kreutz, ao lado de Matt Damon. Em 2006, atuou em “Romulus”, drama australiano, ao lado de Eric Bana, e foi indicada como melhor atriz pelo Australian Film Industry Award.  No mesmo ano dirigiu a comedia muda” Der die Tollkirsche ausgräbt”. Em 2008, apareceu no filme “Che”, como a personagem Tamara, que estreou no Festival de Cannes no mesmo ano. Atuou também em “Xangai”, filme lançado somente na China.

A atriz no seriado Copper
Em 2011, atuou no drama “The Sinking of the Laconia”, da BBC. No ano passado, atuou como Eva na série da BBC Americana “Copper”, que está em sua segunda temporada.

De 1998 a 2002, Franka namorou o diretor Tom Tykwer. Em 2011, deu a luz a uma menina. Atualmente, aos 38 anos é casada com o ator Derek Richardson.

Franka, ao lado de Derek Richardson 

E essa foi mais uma Sessão Antes e Depois. Até a próxima!  

Danilo Moreira  

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Fontes:
http://www.franka-potente.org/
http://www.adorocinema.com/filmes/filme-10295/
http://supernovo.net/colunas/frames-por-segundo/corra-lola-corra-critica/
http://www.adorocinema.com/personalidades/personalidade-18840/biografia/
http://en.wikipedia.org/wiki/Franka_Potente
http://www.adorocinema.com/filmes/filme-10295/curiosidades/
http://www.labcom.ubi.pt/files/jornadas_cinema_digital/apresentacao_corra_lola.pdf
http://www.sundance.org/
http://www.cineclick.com.br/falando-em-filmes/noticias/veja-os-indicados-do-2-grande-premio-cinema-brasil
http://www.gq-magazin.de/tags/p/franka-potente

Foto: 
http://www.overmundo.com.br/overblog/7-elementos-estruturais-em-corra-lola-corra
http://www.rp-online.de/gesellschaft/leute/franka-potente-ein-deutscher-filmstar-1.1973370 
http://collider.com/copper-review/
http://www.promiflash.de/klammheimlich-franka-potente-hat-sich-getraut-12082422.html

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Ei, você é alienado!


Em alguns momentos, os ecos das manifestações produzem certas ressonâncias estranhas...

Domingo, enquanto corria o jogo entre Brasil e Espanha (que não me animei para assistir, mas acabei assistindo), observei nas mídias sociais um conflito curioso. Quem comentava sobre a partida, se manifestava como torcedor, comemorava a cada gol feito, virava alvo de certos indivíduos que se consideravam “legítimos lutadores por um país melhor”. E pensando bem, esse tipo de hostilidade é parecido com o que acontece com militantes de partidos, religiosos, e até quem apenas faz comentários simples de algum tipo de entretenimento (curiosamente, não vejo ninguém reclamar de quem curte atrações norte-americanas, por que será?). O negócio agora é ir pra rua, protestar contra todos os problemas do país, e não “relaxar” em nenhum momento.

Mas, quais são mesmo as pautas dos protestos em geral?

Dentre as várias, está a que é contra os gastos excessivos da Copa, a manipulação da mídia, e incentivar mais investimentos em Saúde e Educação. Certo. Agora, isso significa que ninguém mais pode gostar de futebol, curtir uma ficção, relaxar por algumas horas embarcando em algum tipo de história? Todos precisam, de uma forma que beira a neura, protestar contra tudo que está errado no país?

Essa forma radical de ver as coisas é um perigo para quem se diz consciente. Extinguir todos os partidos realmente vai acabar com a corrupção? Eliminar a Globo da face da Terra, como muitos sonham, vai mesmo diminuir a manipulação da mídia brasileira e deixar a população menos alienada? Não falar mais de futebol, não torcer a favor da seleção, não consumir qualquer tipo de entretenimento sob o receio do “vampiro da alienação”, vai mesmo tornar alguém mais consciente dos problemas do país? Extinguir as crenças religiosas vai tornar as pessoas com a mente mais aberta e totalmente livre de preconceitos? Protestar apenas na rua é a única forma de mudar o país?

Posso ter usado um tom até radical no parágrafo anterior, mas é assim que muita gente age, julgando a consciência política das pessoas apenas por uma pequena amostra dos seus gostos pessoais e crenças e pior, vomitando frases revolucionárias com certo ar de superioridade. Acho preocupante quando o desejo de mudar se torna um grito tão alto que não aceita opiniões de pessoas que até concordam, mas não são iguais àquela voz, ou não atuam no mesmo ritmo por conta de limitações ou por terem os seus próprios conceitos. Às vezes falam mais baixo, ou não falam – escrevem, cantam, se fazem ouvir de outras formas. E não pararam as suas vidas e nem deixaram de lado tudo aquilo que gostam por conta disso. Mas se elas estão engajadas na mesma luta e fazem por onde, a meu ver, isso é o que importa.

Se for seguir esse pensamento radical, ninguém que participou e participa dos protestos poderá torcer pelo seu time de coração, nem assistir ou comentar sobre qualquer tipo de entretenimento que gosta de assistir para relaxar. Aliás, para que consumir entretenimento, quando se tem um país inteiro para mudar? E aí que entra o ponto principal: alguém por acaso realmente faz isso? Ah, hipocrisia detected.

Os únicos, a meu ver, que realmente seguiram à risca esse tal “padrão de vida pró-luta” foram os militantes que no começo dos anos 70, auge do regime militar e da repressão, foram para a luta armada. Abandonaram as suas famílias para viverem clandestinamente, em condições precárias, respirando a causa e sofrendo as consequências 24h por dia. Mas não vivemos exatamente aqueles tempos e nem, por enquanto, somos obrigados a frear completamente nossas vidas para lutar contra as causas (Quais mesmo? Você se lembra de todas?).

Precisamos aprender a separar o joio do trigo. Nem todo mundo que é fanático por futebol, consome determinados entretenimentos, possui alguma crença religiosa, ou atua em algum partido, é necessariamente O alienado. A alienação começa quando tudo isso é posto acima dos problemas do país como uma forte anestesia. E é claro que existe gente assim e que precisa acordar com urgência. E não é indo para a rua. Antes disso, é aprendendo a pensar. Ir à rua ou às mídias sociais como um robô que repete frases revolucionárias feitas, pra mim, não é protestar, e posar com uma consciência que na verdade não amadureceu.

Em outras palavras, devemos tomar cuidado para que esse pensamento tão radicalista (e que felizmente ocupa a cabeça da minoria) não continue a reforçar, agora sob o pretexto da gana de mudança, as mesmas manias de rotulações, julgamentos e preconceitos a que todos nós somos submetidos, de uma forma ou de outra, no dia-a-dia. É o velho ditado de não deixar se levar pelas aparências.

A ideia aqui não é defender a Globo, as religiões, a Copa ou determinados partidos, mas sim, fazer pensar até que ponto boa parte do povo acordou. Muitos sabem que precisam gritar para mudar alguma coisa, mas no que diz respeito a pensar primeiro antes de falar, o sono ainda pode estar profundo...

Danilo Moreira

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FOTO: http://www.artigosecronicas.com.br/o-perigo-de-apontar-o-dedo/ (Google)

domingo, 23 de junho de 2013

O país dos acordados

Av. Faria Lima - 17/06/2013 - Manifestantes gritam para
pessoas na sacada de um prédio comercial
♪Vem, vem, vem pra rua vem, contra o aumento!♪

Essa é a terceira vez que tento escrever sobre o assunto com receio de ser mais do mesmo. Na primeira, talvez por ter vivido a História tão intensamente, ainda estava extasiado com tudo. Saíram três páginas. Na segunda, mais sutileza e olhar direcionado para os rumos dessa mesma História. Já agora, com a cabeça mais distante, vou tentar expressar o que penso sobre o que estamos vivendo nessas semanas.

Alguém me disse uma vez, em 2012, que o aumento da passagem de ônibus (já cara) foi empurrado para a próxima gestão, e quando acontecesse seria um estardalhaço. Por isso não me surpreendi quando vi jovens nas ruas protestarem contra o valor de 3,20. Porém, conforme o crescimento dos protestos e junto com a violência – que aqui em São Paulo, a meu ver, chegou ao seu ápice com as repressões policiais extremas no Quarto Ato (13/06) – senti que a luta era muito maior. A tal ferida da acomodação brasileira recebeu vários tiros com balas de borracha. E doeu. A grande imprensa, acostumada a rotular (“manifestantes vândalos”, “mimados”, “rebeldes sem causa”, não era isso?), também sentiu esses tiros ao ver seus próprios funcionários feridos até em locais fora das manifestações. Doeu também em quem nada tinha a ver com a história, mas estava no local errado – ou era a tropa de choque que estava? Doeu nos olhos de quem estava em casa e viu a quantidade de pessoas jogadas à própria sorte com bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e balas de borracha. Doeu até mesmo no Estado, que viu o quanto tinha passado dos limites. Preso por porte de vinagre? Uau... E então, não era mais só 0,20. Era a corrupção, a repressão, a PEC 37, o projeto conhecido como “Cura Gay”, e uma série de outras reivindicações.

E então, incomodado com a situação (mais do que eu mesmo imaginava), cedi ao coro do “Vem pra rua” e fui ao Quinto Ato (17/06), auxiliado pelo grupo que o pessoal da minha antiga faculdade montou no Facebook, tanto para nos encontrarmos quanto para nos atualizar de tudo que acontecia nos arredores. Vi as ruas lotadas de várias gerações, cartazes, prédios com panos brancos e acenos, gente fora dos carros protestando como podiam. E (surpresa!) não vi nenhum policial durante todo o trajeto que percorri (Av. Faria Lima, Juscelino Kubitscheck, Brigadeiro Luis Antônio e Paulista). Ouvia nossas vozes ecoando forte, e as reivindicações berradas com toda a força da garganta. Protesto pacífico. Ironicamente, estive nas vias em que mais passei raiva com ônibus. E agora, eu via aquelas mesmas linhas paradas para nós passarmos. Aqueles mesmos semáforos que tanto ferraram com a minha vida, agora não me paravam mais. Que sensação! Senti a minha geração respondendo à altura as coisas que as anteriores sempre jogavam na nossa cara: “Essa juventude de hoje não quer nada com nada!”. Foi provado que não é bem assim.

Av. Juscelino Kubitschek - Parada no trânsito,
senhora ergue seu cartaz para os manifestantes, que aplaudem

Mais protestos pelo país, confronto ou cenas inusitadas com a policia, casos de saques e depredações (e de manifestantes fazendo de tudo para conter as mesmas), e tarifas em algumas cidades foram reduzidas, inclusive em São Paulo. Mas, como disse, não eram mais só 20 centavos. A partir daí, fazer protesto virou rotina. Tornou-se mania. Muita gente agora quer ir à rua, mas sem ter um foco. Manifestações são marcadas por perfis estranhos. “O povo acordou, vamos protestar contra tudo!” Todo bairro quer fazer o seu barulho. Depois das 17 horas, olho nos noticiários para saber onde as manifestações bloquearam dessa vez. Globo suspendendo as novelas para cobrir o Palácio do Itamaraty sendo incendiado? “Uau... tem coisa errada aí...” “Fora partidos!” “Fora Dilma!” “Fora prefeito!” “Fora Globo!” “Fora governador!” E quem vai entrar no lugar? “Essa tal minoria infiltrada destrói o que vê pela frente apenas por destruir, ou tem algo oculto nessa história?” “Podemos sofrer algum tipo de golpe?” “Quem sabe...” E então, um clima de desconfiança também se manifestou no tal povo acordado.

E daqui para frente, o que vem por aí?

Torço para que os protestos continuem, mas com foco. Que não deixemos de protestar, seja na rua, nas redes sociais, ou de qualquer outra forma. Mas apenas gritar palavras de ordem não resolve o problema. De nada adianta apenas berrar contra as injustiças se não se acompanha tudo que tem sido feito pelos candidatos que você escolheu nas eleições. Votar nulo resolve mesmo o problema? Ou apenas muda os nomes? E a tal memória curta do brasileiro, infelizmente, vai se manifestar?

A prova de que realmente o povo acordou começa agora, não deixando que esse sentimento forte de ação e mudança seja ofuscado pelo tempo ou direcionado para utopias. É preciso cuidado com grupos de má fé, que se aproveitam de grandes mobilizações para agir a favor de seus próprios interesses. É necessário ter foco, conhecimento e informação, para lutar por cada causa a seu tempo e de maneira pacífica (porque, ao contrário do que muitos falam, saquear lojas e depredar ônibus para mim é um tipo de vandalismo que reforça os estereótipos da grande mídia e pode dar mais argumentos a favor da repressão aos manifestantes sérios). 

Estação Pinheiros - Das cinco escadas ouve-se
um coro: ♪O povo acordou...♪

Me sinto satisfeito por testemunhar essa história, e continuo a fazer a minha parte dentro do que posso. O governo parece ter entendido o recado. As indignações ultrapassaram as redes sociais. Agora, são gritos, cartazes, faixas, mãos erguidas, panos brancos e um desejo de arrumar a casa. Aqui e em outras partes do mundo.

Na sexta-feira, enquanto estava na Linha Esmeralda, vi um vagão barulhento como de costume. Mas, ao tirar o fone de ouvido, me senti bem: todos comentavam sobre a situação do país, os rumos da política, os protestos. Nas calçadas da Av. Paulista, idem. Na recepção da clinica que passei, também. Quando poderia imaginar que um dia eu veria os rumos do país sendo discutidos com tanta frequência? Não era disso que muita gente reclamava? “O povo só fala de futebol e novela, enquanto os políticos fazem o que querem”. Pois é, agora, o país está em pauta. Ninguém, por mais que odeie política, passou ileso por essa fase. O Brasil deixou de ser o “país com tudo errado” para “o país que precisa de conserto”. E isso já é um ganho precioso.

Posso, talvez, ter escrito mais do mesmo. Ou escrito alguma bobagem, já que estamos ainda em uma fase indefinida. E eu já estou de saco cheio de tentar escrever algo sobre o assunto (pronto, falei!). Não tem problema, acho que mais do que nunca o blog precisa ter um registro desse período tão importante na nossa história. Só torço mesmo é para que nada disso caia no esquecimento e voltemos a ser a aquela nação que apenas ri de tudo.  

Que a luta continue, com a cabeça e os olhos bem abertos para o bom senso.  

Danilo Moreira

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FOTO: Acervo pessoal (fotos de celular - tive um pequeno problema no dia, não deu pra tirar fotos melhores)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Cerveja



Inspirado em um copo cheio qualquer, por aí...


É isso. A noite quieta. O ruído do notebook e os coolers da sua base. E você.

Não tenho mais companhia agora. Tenho apenas o calor do meu corpo, os pensamentos que oscilam o meu humor, desejos de me expressar por meio da escrita, e seu gosto meio amargo e espumante. Você.

Não quero ser politicamente correto agora. Não me interessa o que pensam de mim. Já pintei muitas paredes e quadros com todo o cuidado para não ofender os olhos de ninguém.

Agora, estou entre paredes, as mesmas da minha infância. O que restou apenas foram as cortinas beges com estranhos desenhos de pantufas, que meus pais me deixaram escolher quando tinha apenas 8 anos. O resto veio depois, com o tempo, com as mudanças. Tudo bem, me sinto aconchegado no colo do meu próprio eu.

Já me senti estático tantas vezes. Mesmo caminhando, correndo. Ou parado de fato, como agora. Já chorei por isso, reclamei, desabafei de todas as formas. O engraçado é que nenhuma delas foi com a sua companhia. Aliás, tinha a sua companhia em momentos completamente diferentes. Nunca estava sozinho. E mesmo que estivesse, tinha milhões de tarefas acompanhando os meus pensamentos do acordar ao dormir. Mas agora, ao fim de uma fase, não vejo outra companhia a não ser você. Não me ouve, mas chega até mim me proporcionando algum tipo de satisfação. E eu aqui a pensar, esperar, apostar em novos caminhos, e continuar a esperar. Esperas, promessas, vontades e bastões a me empurrar para trás o tempo todo. Esse livro se resumirá a isso, como o enredo batido de uma novela?

Talvez essa nuvem esteja com um cheiro fétido de solidão. Ou apenas aquela sensação atroz de ponteiros atrasados. Malditos ponteiros. Cansei de pensar nos problemas das engrenagens. Só quero fazê-los funcionarem.  

E continuo com a sua companhia. Me prendi. Fechei as janelas. Não desperdiço mais lágrimas vendo as mesmas artes, mesmo o coração behaviorista insistindo para que eu o faça. Não quero. Não irá mover nada, apenas esvaziar esse balão auto suficiente.

Malditos ponteiros atrasados... Logo as tecnologias mudam, e eles ficam de vez para trás, ainda tentando acompanhar o tempo. Antes tivessem caído, levado socos, experimentado todos os cantos do quarto, atrapalhado sonos, prolongado sonecas, brisando olhares e pensamentos, enfeitando a noite com sons. Teria história para contar. Não seriam apenas objetos, deixariam marcas.

Mas, tudo bem. Não adianta lamentar. Lamentos e pensamentos positivos só servem para vender bem. A prática os esnoba de maneira subliminar. O que estou dizendo? Ah, é você. Sabia que ia me entreter logo. E por isso que está aqui.

Não tenho mais o que dizer. Só continuar aí, na atividade, como cantava o saudoso Chorão... a minha adolescência deve muito à ele, ainda que deva mais a mim mesmo. Ah, meu caro, já está me confundindo as ideias. Pelo menos as minhas confusões se tornam mais divertidas e menos penosas, como sempre foram.

Agora vou me recolher. As horas passam, não têm pena de ninguém, muito menos de quem está parado na estrada. Tudo que não serve apodrece e vira adubo, até para os animais menos dignos de afeição.

Obrigado por me acompanhar, mais uma vez. Quem sabe um dia, teremos mais gente e mais motivos para celebrar a nossa companhia?

Boa noite. E repouse bem sob o calor do meu corpo. 

Danilo Moreira

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FOTO: Ultradownloads

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Sociedade virada


Centro de São Paulo, onze da noite. Numa esquina da Rua Aurora, um grupo de amigos, animados, cantava as mais patéticas músicas em meio a uma ciranda desengonçada. Logo, grupos de pessoas desconhecidas se juntaram à roda, e passaram a cantar mais alto. Cantaram de Ilariê à música do Jornal Nacional. Quem caminhava por ali chegava a parar, assistir e a tirar foto daqueles loucos.

Logo depois, no Palco Arouche, ao som de Sidney Magal com “Sandra Rosa Madalena”, desconhecidos formaram uma roda no meio do público, e uma moça, com uma rosa na boca, fazia performances engraçadas. Ela ia na direção de alguém e dava essa rosa na boca da pessoa. O(a) premiado(a), ia para o meio da roda, e também sensualizava. Do alto de um prédio, uma “biba” de cabelos brancos também dançava, mas com glamour. Quem estava em baixo reparou, e batia palmas, gritava, rasgava elogios irônicos. Foi então que, inesperadamente, um dos holofotes do show se voltou para a tal janela. Toda a plateia se virou, e começaram a ovacioná-la. A “biba” empalideceu, e sentindo-se uma lady, mandou beijos antes de entrar. Até o Magal a elogiou. Na verdade, naquela madrugada, não se sabia quem eram as maiores atrações: o cantor, a plateia, ou os moradores dos prédios ao redor.

O ano era 2010. Era a segunda vez, que eu ia ver a Virada Cultural no Centro de São Paulo. Foi uma noite animada, inesquecível, com boas atrações, ao lado dos amigos. Mesmo testemunhando um incidente (um rapaz roubou o boné de um homem e foi espancado por outros frequentadores), tinha valido a pena.

E ontem, me deparei com notícias de vários veículos sobre os episódios de violência na edição desse ano, a 9º, que contou com quatro milhões de pessoas, segundo a Prefeitura. Foram dois mortos, 17 prisões em flagrante, 12 roubos, 12 tumultos, seis pessoas esfaqueadas, nove menores presos e uma arma apreendida, conforme informações oficiais. Nem vou entrar em outros dados, como pessoas machucadas e arrastões, para não tornar o texto alarmista. É claro que casos violentos também aconteceram em edições anteriores, como em 2007, marcado pelo confronto entre público e PMs e que interrompeu o show da banda Racionais MC’s, na Praça da Sé. Mas confesso que esse ano, mesmo não tendo ido, me espantei com a quantidade de relatos de assaltos, arrastões, agressões, brigas e até a negligência de alguns policiais que presenciaram grande parte dos atos. Certamente, a incidência desses casos foi maior do que nas edições anteriores.

Não é novidade que quase todo evento aberto com grande público (ou não) acaba por atrair cenas de violência como as noticiadas. Mas dessa vez, a quantidade de relatos nos comentários dos sites, além do testemunho de vários repórteres que faziam a cobertura dos locais, me levou a pensar no grau de doença da nossa sociedade. Jovens usam o espaço público para explanar violentamente as suas revoltas e o seu desejo de “liberdade” por meio do consumo exagerado de bebidas e drogas. Outros, se aproveitam da multidão e da certeza da impunidade para “causar” terror e roubar o máximo de pertences possíveis (e nem o senador petista Eduardo Suplicy escapou dessa). E tem os clássicos: lixo no chão, depredação de mobiliário urbano, urina em qualquer canto, etc.

Em suma, um evento que deveria extrair o melhor do ser humano acaba por reproduzir as mazelas da sociedade atual, desde aos infratores “tocando o terror”, a pessoas de bem sofrendo traumas da violência e sendo obrigados a usarem o instinto de sobrevivência como se estivessem em uma selva. É claro que a Virada Cultural é muito mais do que o Centro. Existem outros pontos da cidade, bem mais tranquilos, onde toda a família pode curtir e de fato respirar cultura (como no SESC Interlagos – publiquei uma reportagem aqui em 2011 sobre a Virada no local). Mas a questão não é essa. O problema é ver um grande palco cultural como o Centro ser ofuscado por esses casos de violência.

Fica aqui a lição. A sociedade precisa de cultura. Mas antes disso, precisa aprender a ser uma sociedade. Não só nos hábitos e na Educação, mas nas cobranças ao Estado e no acompanhamento do que é feito pela cidade onde mora. Caso contrário, seja na Virada Cultural ou em outros eventos, a violência desmedida e impune continuará a se tornar a “atração principal”. 

Danilo Moreira

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Foto: acervo pessoal 
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