domingo, 2 de agosto de 2009

Nove e Meia - Parte I

História com duas partes

Rafaela olhou em seu relógio. Eram 20:54. Chegou cedo. Sorte que aquela praça era bem iluminada. Poderia ficar ali esperando sem receio. Após soltar um suspiro, sentou em um banco, e passou a observar o movimento.

Os minutos iam se passando e Rafaela viu em seu relógio que já eram 21:00. Ainda faltava um bom tempo. Teria que ter muita criatividade para esperar tanto...

Mas, o barulho de passos a fez desviar a sua atenção.

Caminhando tranqüilamente, Marcelo seguia para o ponto em que marcou seu encontro: o banco que ficava ao lado de um poste. Era o banco que Rafaela estava sentada. Vendo que o rapaz vinha na sua direção, a moça sentiu-se apreensiva. O que aquele homem queria com ela? Mas, Marcelo apenas fez um olá com a cabeça, e permaneceu de pé ao lado do poste. Preferiu não sentar, percebendo a apreensão da menina. Rafaela então, percebeu que o rapaz também estava esperando uma pessoa. E ambos ficaram como estavam; ela, sentada e olhando para o nada; e ele, olhando para as árvores, revezando com as olhadas no relógio. Também havia chegado cedo.

Silêncio. Como numa sala de espera de consultório, Rafaela cruzou as pernas, e começou a roer as unhas. Marcelo, com as mãos nos bolsos da jaqueta, começou a assobiar, ainda olhando o relógio do seu celular minuto a minuto.

Rafaela então, olhou para Marcelo:

- Moço, não quer sentar?

- Não não. Obrigado.

- Pelo que eu percebi você vai ficar muito tempo aí esperando em pé. Vai se cansar.

- Não vou não... eu acho...rs... Mas pode ficar.

- Senta. Tem espaço de sobra aqui no banco.

Marcelo olhou para a menina. Com um olhar simpático, ela pedia para que ele se sentasse. Ele não resistiu. Mostrou um sorriso envergonhado admitindo que ela havia vencido, e sentou-se ao seu lado, ainda que na outra ponta do banco.

- Obrigado.

- Imagina...

Outra vez, o silêncio. Minutos longos eram aqueles. Ambos olhavam para seus relógios. Cruzavam e descruzavam as pernas. Olhavam para o chão. Olhavam para as árvores. Olhavam para o movimento. Olhavam para o outro repetindo os mesmos gestos.

- Esperando a namorada?

Marcelo virou-se para ela, como se despertasse de uma espécie de transe.

- Eh... sim. Marquei com ela de se encontrar aqui às 21:30. Só que eu cheguei cedo demais...hehe... E você? Esperando o seu namorado?

- Sim, sim. Coincidência ou não, também foi marcado aqui e no mesmo horário.

- Caramba! Que coincidência, não?

- Põe coincidência nisso!

Ambos riram juntos.

- Namoram há muito tempo? – perguntou Marcelo.

- Sim, há quase dois anos. Nos conhecemos num barzinho perto da Paulista. No começo foi meio complicado porque a minha família não aceitava muito o namoro. Não gostavam dele...

- Eu sei... Também já passei por isso. Os pais da minha namorada também não me aceitavam. Ela quase foi expulsa de casa quando descobriram. A gente namora há cerca de um ano.

- Bacana. Onde você a conheceu?

- Foi numa balada na Vila Olímpia. Foi tão estranho no começo, no primeiro dia que a vi senti muita atração por ela, mas foi algo assim quase que instintivo, sabe? Nem eu imaginava que as coisas aconteceriam tão rápido como foi. No começo foi difícil aceitarem o nosso namoro.

- Nossa, mas por quê?

- Sei lá. Acho que é porque as pessoas não gostam de ver a felicidade do outros. Ou a querem ver do seu jeito...

- Sei bem o que quer dizer...

continua no próximo post...


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quarta-feira, 29 de julho de 2009

E Aos Meus Olhos, Boa Sorte


Há coisas que não voltam mais.

Escombros que já caíram. Vidas que já se foram. Restos e fragmentos cujos odores ainda tocam a alma e fazem doer todos os nervos do meu corpo.

Murros tomados pela vida e pela morte...

Olhos cada vez mais cinzas à procura de uma luz tão bela e aconchegante como já fora outrora.

Cansaço...

Sinto acumulado várias pedras que vira e mexe navegam pelas minhas paredes, esfregando sua superfície sobre os meus nervos, me arrancando lágrimas de dor.

E ponho-me a chorar, seja em lágrimas, ou apenas na complacência do silêncio.

Um olhar baixo, para o nada, ao som de uma música triste.

Até me esvaziar...

Sei que certas dores são inúteis e merecem ficar largadas nos arquivos do passado.

Mas enquanto não me acostumar com o presente, é do passado que tirarei minhas conclusões.

Mas há o futuro...

Futuro talvez atrasado, mas que aos poucos, volta a ocupar o seu lugar... os meus olhos...

Desejo o futuro. Desejo caminhar. Desejo me libertar das cores cinzas, mesmo que as use apenas para fazer arte.

E a vida continua, mesmo que eu caminhe com lágrimas ao peito, mas nesse mesmo peito bate um coração jovem, que precisa mostrar ao mundo o que viera fazer aqui.

E aos meus olhos, boa sorte.

Danilo Moreira

São Paulo, dezembro de 2008


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sexta-feira, 24 de julho de 2009

Delírio - Ódio


Era um sujeito como outro qualquer
Que tinha seus pilares no lugar
Tinha sua vida no lugar
Tinha sua mente no lugar
Tinha seus sonhos no lugar
Tinha seus traumas no lugar

Seguia linearmente a linha da sua vida
Sua vida era seguida linearmente no lugar
Corria atrás de seus sonhos
Tinha suas asas voando alto, cujo volante era comandado pela razão
Levava seus espinhos com quem carregava travesseiros nas costas

Porém, num certo dia, seus olhos abriram de maneira diferente
O excesso de cutucões no seu ego abrira fendas no escudo que o mantinha são

Entrou na sua pele
Abriu as fendas do seu lado sincero
E o fez explodir...

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHH

e sua linha reta entortou-se para uma outra direção...

Mato a todos que me mataram
Degolo as cabeças que pensaram contra mim

Estupro os corpos que me recusaram friamente
Humilho àqueles que
me humilharam aos risos
Arrasto na lama àqueles que
me arrastaram
Quebro os vidros daqueles que
os meus quebraram
Torço os ossos daqueles que
torceram meu ego
Esburaco à balas a carne daqueles que
se julgam imbatíveis
Depredo as mansões daqueles que
pisotearam a minha casa
Berro aos ouvidos daqueles que
gritaram nos meus
Limpo meu ego com o sangue de todos que o sujaram


E sobre sangue, medo e escombros, colocara a cabeça no travesseiro. Agora iria dormir em paz...

Porém, toda paz proporcionada pelo ódio...
é na verdade...
traiçoeira...

Mato a [todos]
Degolo [todos]
Estupro [todos]
Humilho [todos]
Arrasto [todos]
Quebro [todos]
Too [todos]
Esburaco à balas [todos]
Berro aos ouvidos [todos]
Limpo meu ego com o sangue de [todos]

Ao cair a placa ligada aos seus nervos mais vitais
Percebe-se se sua alma ficara mais suja do que todos os outros

A paz ficou com nojo dele
Bateu asas para a terra do passado
Tua alma entrara de cabeça no lago do remorso
Estava condenado a afundar em suas águas
E sentir o seu gosto amargo para sempre

Beba essa água! Afogue nessa água! Beba essa água! Afogue nessa água! Beba essa água! Afogue nessa água! Beba essa água! Afogue nessa água! Beba essa água! Afogue nessa água! Beba essa água! Afogue nessa água! Beba essa água! Afogue nessa água! Beba essa água! Afogue nessa água! Beba essa água! Afogue nessa água! Beba essa água! Afogue nessa água! Beba! Afogue! Beba! Afogue! Beba! Afogue! Beba! Afogue! Beba! Afogue! Beba! Afogue! Beba! Afogue! Beba! Afogue!

E num certo dia...
abriu os olhos para o mundo...
viu que estava sozinho...

e devendo muito mais do que poderia pagar...

Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo!
Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Devo! Pague! Pague! Pague! Pague! Pague! Pague! Pague! Pague! Pague! Pague! Pague! Pague! Pague!
Pague!

E se sua mente não tiver a mínima condição necessária para ser mente,
a sinfonia dos devedores irá o acompanhar até a morte.
Até ele aprender a apertar seu Stop.
E aprender a apreciar, de fato, a melodia do perdão.

O perdão...
O habbeas corpus da alma
Cujo instrumento você terá que aprender a lidar
Se quiser continuar vivo em sua linha reta.

Danilo Moreira


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sexta-feira, 17 de julho de 2009

Sombra e Pureza


Certo rapaz que caminhava tranqüilamente pela estrada, passou a observar o que deixava para trás.

Não conseguiu ver muita coisa. Haviam sombras atrás dele. Sombras estranhas e que não paravam de observá-lo.

Ele fechou a mão para socar uma delas. Não consegui reagir. Algo o paralisou. Algo que uma das sombras lhe disse:

- Isso é um assalto!!!

Roubaram os seus tesouros.

Tiraram o que ele tinha de melhor.

Comeram os seus olhos que viam as paisagens.

O rapaz caiu de joelhos. Pediu a Deus que não o desamparasse. Pediu que não o deixasse cair.

Mas seu ego machucado fora mais forte.

Caíra na estrada. Arrastara-se como uma cobra. Lambera a sujeira do asfalto esburacado. Virou trampolim dos ratos.

Acabara no acostamento da vida.

Outro rapaz vinha cabisbaixo. Tinha problemas com a namorada. Mas já era algo que já estava esperando. Não estava tão abalado por isso.

O que o abalou foi o lixo humano que encontrara dormindo ali perto. Pensou em ir lá. Pensou em fugir. Tinha medo do que poderia lhe acontecer.

Mas, algo brotou de dentro de si.

Foi até onde o rapaz estava. Estendeu-lhe os ouvidos. Ouviu os desabafos. Lhe deu conselhos. Ergueu o rapaz. Ergueu o seu ego. Deu-lhe novos olhos para a vida.

E no fim, pelo menos uma vez, alguém mostrara a verdadeira pureza abafada no coração do ser humano. Pobre daqueles que achar isso demodè, porque no fundo, é o que todos andam precisando.

Em menor, ou maior escala.

Danilo Moreira

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terça-feira, 14 de julho de 2009

Um Tempo, Um Jovem e Um Dilema


Rodrigo tinha dezoito anos e meio. Já havia completado o Ensino Médio. Vivia dividindo o seu tempo entre o lazer, a procura por trabalho, e principalmente a busca por um rumo, um caminho a se seguir. Estava com dificuldades para obter essa resposta. Iria para uma biblioteca fazer uma pesquisa sobre carreiras e faculdades.

E por fim, chegou ao local. Foi direto para a prateleira dos guias de profissões. Pegou três livros. Sentou em uma mesa vazia. Começou a folhear um dos livros. Eram propagandas de diversas faculdades, prometendo te transformar em um profissional rico e consagrado. Em seguida, fuçou na parte dos testes vocacionais. Já estavam rabiscados por diversos outros jovens que também estavam no mesmo dilema que ele. Pensou em fazer aquele teste. Desistiu. Já havia feito vários, e o resultado não havia sido satisfatório.

Chegou à página onde começava a descrição das profissões. Eram várias. Muitas opções, carreiras, oportunidades, caminhos a serem seguidos. Pegou uma folha de fichário. Anotou algumas profissões de que gostou. Resolveu focar sua pesquisa somente nelas. As horas foram passando e Rodrigo acabou chegando a somente três. Teria que se decidir por uma delas. Não conseguiu. As três eram boas. As três tinham a ver com ele. Mas, escolher qual delas?

Parou. Peso. Como era difícil escolher uma profissão. Era a mesma sensação de estar caminhando num corredor silencioso e enigmático. Havia as portas. Teria que escolher uma. Porém, ao abri-la, não se via nada, apenas escuridão. Tinha que entrar em uma daquelas portas. Ele podia buscar referências, tentar acender a luz, apalpar o chão e as paredes, mas mesmo assim, ele teria que encarar o escuro, correndo o risco de se dar mal.

Será que pensar demais não era ruim? Talvez, ficaria até mais em dúvida do que antes. Mas era bom pensar, pensar mesmo, organizar-se para lá na frente não descobrir que perdera tempo e jogara dinheiro fora. Mas Rodrigo sabia que mesmo assim, muita gente acabava mudando de curso. Não adianta, tempo e dinheiro sempre se perde. Tempo ele já estava perdendo ali, parado e pensativo, e dinheiro... bem, gastos com ônibus, guias de profissões, vestibulares...

E, cansado de viver nesse dilema, Rodrigo resolveu ir embora. Ao sair de volta para a rua, olhou para o céu. Viu que a tarde estava linda. Não era hora de ir para casa. Resolveu ir para o Ibirapuera.

Chegando lá, foi para perto do lago. Olhou para o céu. O sol já estava se pondo. Resolveu esticar as pernas. Deitou-se na grama, ficando com os olhos imóveis por alguns minutos. Pensava em seus amigos. Quase todos trabalhando, estudando, correndo atrás de seus sonhos. Ligava para eles, nunca estavam. Viviam ocupados. Chamava-os para sair. Mas desistia. Não tinha dinheiro. Quando eles apareciam, vinham cheios de novidades para contar. E ele, na mesma. Sem nada. Era uma sensação incômoda de estar sendo passado para trás, mas no fundo, essa é que era a verdade. Todos iam para algum lugar e ele ficando no meio do caminho...

Olhou para seu relógio. Já era hora de ir. Mais uma tarde se encerrando, e Rodrigo encravado no mesmo dilema.

Entrou num ônibus, sentou num banco, e pôs-se a olhar o sol se pondo lá fora, e continuar no seu incansável dilema de qual caminho seguir.

Mas, mesmo com essa angústia toda, Rodrigo sabe que, um dia, mais cedo ou mais tarde, ele vai encontrar essa resposta...

São Paulo, outubro de 2006

Danilo Moreira

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