
Fechou-se no escritório. A tarefa: escrever uma crônica para um jornal, coisa que ela, jornalista, sempre fazia todas as noites de sexta para sábado. Eram crônicas relacionadas a temas do cotidiano, tanto no campo político quanto no social e no religioso. Estava inspirada. Iria escrever sobre as declarações cínicas de um político que participara do “Mensalão” mas fora absolvido. Mais um impune, como sempre.
Começou a escrever a primeira linha. Deixaria o titulo por último. No parágrafo, iniciou já citando a famosa “pizza” distribuída entre os políticos absolvidos. Foi desenvolvendo o texto, descarregando com um fio de ironia toda a sua indignação com o fato. O texto estava saindo bonito, talvez nem fosse necessário revisá-lo. O trabalho do dia seria mais rápido.
Porém, de repente, Clara parou de escrever por um momento. Olhou para trás. Devido ao abajur aceso sobre a mesa, única iluminação no local, sua sombra estava sendo refletida na parede. Deu risada. Lembrou-se de que, quando pequena, das histórias que sua mãe contava sobre a nossa sombra. Dizia-se que nós não podíamos ficar muito tempo olhando para ela, senão ela ia sair da parede, nos pegar e levar de volta com ela para lá. “Como o povo gosta de pôr medo nas crianças...”
E virou-se novamente para o seu notebook. Continuaria a escrever sua crônica. Virou-se de novo. Aquela sombra estava muito estranha. Ela era sempre torta daquele jeito? Clara coçou a cabeça. Não se recordava daquela sombra. Talvez nunca tivesse reparado nos seis anos em que escrevia por ali e da mesma maneira.
Começou a sentir uma sensação esquisita. Parecia que a sombra estava de olho nela. Parecia ate estar se mexendo sozinha, mesmo com ela parada na cadeira. “Eu hein!” pensou ela, voltando-se novamente para seu notebook. Escreveu mais uma linha. Parou novamente. Cismara com a sombra. “Que absurdo – pensava ela – tô parecendo quando era criança, cismada com um simples fenômeno físico. Aliás, nem acho isso fenômeno. Eu não acredito que parei a minha crônica por causa da minha sombra. Preciso dormir mais...”
E voltou-se novamente para seu texto. Pronto, não conseguia mais escrever. Bloqueio. Agora, começara a sentir um leve arrepio nas costas. Resolveu ficar de pé, e só de deboche, começou a brincar com a sombra. Tudo normal como sempre: o que Clara fazia, a sombra fazia também. E pronto. Sentou-se de volta na cadeira, voltando a escrever mais algumas palavras. Palavras essas que passaram a demorar a sair, até Clara travar novamente. Pronto, por causa da sombra, perdera a inspiração para escrever.
Ficou irritada e fechou o notebook. Resolveu escrever no dia seguinte, bem cedo, sem sombra para lhe deixar paranóica. Apagou o abajur, ficou de pé e saiu do escritório, indo diretamente para o seu quarto. O estranho é que, após fechar a porta, ouviu-se um estranho barulho vindo de lá de dentro.
Preferiu não ver o que era. Como dizia a sua mãe, era melhor não mexer com essas coisas.
Danilo Moreira
São Paulo, maio de 2006
FOTO: http://mfda.files.wordpress.com/2008/01/sombras.jpg



