
Dez horas da noite.
Era esse o horário que André se reconectava com o mundo. Despedia-se dos colegas de trabalho e saia rumo ao ponto de ônibus. Tinha que caminhar um pouco, aproximadamente dez minutos ate o local. Naquele dia, infelizmente, ele teria que ir sozinho, já que seus amigos tinham saído mais cedo.
O ponto de ônibus ficava numa avenida movimentada do Centro. Naquela hora, havia poucas pessoas que ficavam ali. Prédios já estavam com poucas luzes acesas. As ruas em volta já demonstravam aquele silêncio de hora de dormir, às vezes quebrado pelo passos de pessoas com destino ignorado.
Mas, o que havia chamado à atenção do garoto estava bem ali, perto dele, sentada em um dos bancos de plástico do ponto. Era uma mulher, aparentando uns trinta e alguma coisa, chorando em silêncio. André logo pensou se a mulher não havia sido assaltada. Observou bem. Ela estava segurando uma bolsa preta no colo, e estava tirando o bilhete único da carteira que parecia estar com documentos. Mas então, por que ela estava chorando? André ficou curioso.
Pensou em ir lá falar com ela, perguntar se ela precisava de alguma coisa. Mas ao ver a expressão carrancuda que ela fez de repente, resolveu ficar parado. A mulher não percebeu que estava sendo observada. Estava agora com um olhar perdido na direção da calçada esburacada. Continuava chorando em silêncio e soluçando sem parar.
Não havia mais ninguém no ponto. Apenas os dois. Uma mulher chorando e um jovem sem jeito, olhando pra ela. E nenhum ônibus passando. André quis disfarçar a sua curiosidade, afinal, vai lá se saber por que ela estava chorando. Poderia querer ficar sozinha. Poderia ter sido por causa de um namoro terminado, ou de uma traição. Ou alguma situação humilhante no emprego entre ela e o patrão. Ou a demissão dela. Poderia ser um parente doente. Uma dívida alta que ela não pode pagar. Algum cara que ela gosta, mas que não dava bola para ela. Ou uma briga com a mãe, com o pai, com a melhor amiga...
Não dava. André se viu envolvido por sua curiosidade. Então por que não ir lá falar com ela, oferecer uma ajuda, um ombro amigo, ou pelo menos um lenço? Mas e a vergonha? VERGONHA? Sim, vergonha, por que não? Ele não a conhecia, iria se meter na vida dela daquele jeito? E do jeito largado que ele estava vestido, e com seus olhos vermelhos de tanto cansaço dando a aparência de drogado, ela até se assustaria achando que ele queria era a bolsa dela. Não, pensar assim era exagero demais da parte dele. Se ela realmente estivesse precisando de ajuda, esses detalhes passariam despercebidos.
Tomou a decisão. Iria falar com ela. Dane-se o que ela ia pensar. Ele estava com boas intenções. Sem perder tempo, foi se aproximando da moça. Ela continuava com o olhar perdido, ainda sem perceber que alguém queria ajudá-la. André ia começar a falar. Uma luz. Um barulho de motor. André olhou para o lado. Era o seu ônibus chegando. Um ônibus que passava só de uma em uma hora. E ainda estava vazio, coisa rara. Deu o sinal com os olhos na mulher. O ônibus parou. E agora, mataria a sua curiosidade ou subiria no ônibus, deixando a moça lá, sozinha? Mas e ele, cansado do jeito que estava, que horas voltaria para casa?
Resolveu subir no ônibus. Por mais que isso doesse, ele estava muito cansado e com muita fome, precisava ir. Passou na catraca e sentou, desconcertado, vendo ficar para trás uma simples curiosidade, um desejo de querer apenas... ser útil...
São Paulo, maio de 2006
Danilo Moreira
FOTO: http://www.goodlight.com.br/Images/Dicas/dicas_internas_cont_lagrimas.jpg